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Chegou no início da noite, um miado rouco vindo
do mato se aproximando, aproximando.... Pequena, amorosa, pelo macio, um rabo
de coelho, curto e volumoso. Foi logo acarinhando nossas pernas, em menos de 3
minutos já se aninhava em meu colo. Foi como se nos conhecêssemos há séculos.
Deu até pena de como era obediente: não pode entrar em casa, parava na soleira
da porta, não pode subir no colo do amado da casa que, já de pijama, não
permite tais intimidades, dava marcha ré com suas patinhas. Batizamos ela de
Dorim, pois o amado esta relendo "O Grande Sertão: Veredas" e ela,
malhada de três cores, tem um pedaço da cabeça dourada. Diadorim, Dorim!
Hora de nos recolhermos para dormir. Fiz um
acordo silencioso com ela: se ainda estiver aí pela manhã e não acharmos seu
dono, sua mãe dona, vou cometer a maior "falta de insensatez" da
minha vida, te levo para casa. Busquei o travesseirinho da Bela, a cachorra do sobrinho-afilhado
Heitor que, às vezes, vem passear por essas bandas. Não tinha muita certeza se
ela ficaria, afinal, uma noite inteira é tempo demais para uma gata esperar em
uma varanda desconhecida. A noite ajudava, nem fria-nem quente, céu estrelado,
lua crescente. Nos recolhemos sem saber qual seria o desfecho da história.
Quando dormimos estava quietinha, mas foi me vir um pensamento "será que ela foi embora?", para ela
começar a miar. Miou intensamente a cada vez que percebia que nos virávamos na
cama ou que íamos ao banheiro. Miou, miou, miou...
Pela manhã, minha primeira providência foi
colocar água para ela. Pensei que, depois de tanto empenho vocal, ela devia
estar com a garganta seca, louca de sede. Mas, parece que ela nem percebeu que
estava com sede. Quando abri a porta, ela desesperadamente começou a enroscar
na minha perna, num entrelaçar de patas, pernas e miados sem fim, um encontro
de seres queridos que passaram muito tempo sem se ver. Só depois de muito
carinho foi que se dedicou a secar por completo o pote de água que coloquei
para ela. Primeiro cuidou da sede de afeto, depois da necessidade básica do
corpo...
Passamos um tempo juntas na varanda a
contemplar a montanha. Ela me ensinou a tomar sol nos entrededos, nunca tinha
pensado em abrir os dedos das mãos para o sol entrar nessas partes tão
branquinhas. No meu colo, ela esticou as patas em direção ao sol e ficou um
tempo com as garras para fora e bem abertas. Dava para sentir que ela sentia o
sol.
Recebemos, do amado, a incumbência de encher as
vasilhas com água da mina que deixamos no vizinho de baixo, no dia anterior. E lá
fomos nós morro abaixo, caminhando lado a lado, eu e ela, como se aquilo fosse
uma rotina em nossas vidas. O vizinho não estava, nosso ritual silencioso, lava
vasilhame, enche, carrega para sombra, durou cerca de 40 minutos (14 garrafões
de 6 litros). Dorim supervisionou tudo.
Na hora de ir embora, quando passei o cadeado
no portão, ela começou a miar e parou olhando morro abaixo. Eu, já subindo,
entendi que ela queria me dizer que sua casa era para baixo e não para cima. Apesar
de uma das minhas missões ser a de tentar descobrir de onde ela era para ajuda-la
a voltar para casa, eu disse para mim mesma que tinha medo de cruzar com
cachorros pela estrada e não saber o que fazer. Isso para esconder o real medo,
que era o de descobrir de onde ela veio e ter que deixa-la para trás. Disse
para ela “vamos, vamos subir”. Dorim veio relutante atrás de mim e não mais caminhava
lado a lado. Pensei que era preguiça dela, pois a subida é braba e o sol estava
escaldante. Mais ou menos no meio do caminho ela dá um miado mais forte e entra
para o meio do mato. Eu segui subindo, com um misto de sentimentos. Vontade de
que ela encontrasse o caminho de volta para sua casa e vontade de que ela
estivesse apenas cortando caminho para me encontrar lá no alto.
Chegando em casa, conto para o amado o ocorrido
e falo que, mesmo contra todo o meu discurso de que dois gatos é um número
máximo para um casal de pessoas, ou melhor, para o casal que somos, eu teria
levado ela para casa cometendo como disse acima a maior falta de insensatez.
Rimos, imaginamos como seria ela com Titia e com Zefinha.
Ainda existia a chance de ela estar lá quando passássemos
de carro para pegar as águas, e a todo momento eu dizendo para mim mesma que
seria ela que decidiria se viria com a gente, ou não.
Fechando a porteira, tive a sensação de que
estava esquecendo alguma coisa e logo localizei no meu intimo a falta que ela
já me fazia.
E fomos. Chegando à casa do vizinho, nada dela
por lá. Quando estávamos colocando os últimos garrafões no carro, ouço o miado rouco
e logo aparece ela ao lado da casa. Contenho meu entusiasmo. Sei que nada sei sobre o que virá. Ela vem,
cheira o carro, o amado entra no seu lugar de motorista e eu a chamo para
entrar... Ela hesita, recua e passa para o lado do portão que já está fechado
com o cadeado. Entendo isso como a escolha dela. Fico um pouco apreensiva sobre
se ela achará sua casa, se vai passar fome, correr riscos. Deixamos uns pedaços
de frango grelhado que tínhamos na matula e partimos tentando achar nas casas
abaixo alguém que pudesse nos dar informação sobre o provável lar da gatinha.
Não encontramos vivalma. Paramos no boteco do povoadinho. Naldo desce para
falar com o pessoal. Parece que ela pertence ao seu João. É melhor pensar
assim, para não nos preocuparmos sobre se ela achará o caminho de volta. Torço
para isso e fico feliz de ter partilhado algumas horas ao lado de um serzinho
tão amoroso. Mas confesso que meu coraçãozinho anseia por encontra-la novamente
na semana que vem!
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