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Coisas que se passam lá no nosso pequeno paraíso, na divisa com Minas Gerais. Nosso mato, nossa roça! Bem-vindos!

domingo, 27 de setembro de 2015

A casa da Harmonia e da Alegria



O amado me presenteou com a passagem para mais uma viagem! Dessa vez uma viagem por aqui mesmo. Preparou uma base de barro de cerâmica e me convocou à brincar de caligrafia. Como alguns de vocês sabem comecei a fazer aula de caligrafia japonesa (shodo), só fiz duas aulas por enquanto e não tenho nenhuma pretensão de aprender japonês, minha vontade inicial é só me entregar ao movimento do pincel. Por enquanto, a única sílaba que sei, sem colar, é a MO, com ela posso assinar meu apelido Momô. Sei, mais ou menos, algumas outras mas não lembro o que significam. Sem contar as proporções e direções de cada traço... um universo que acho que não é nessa vida que caberá decifrar.

Topei o convite do amado sem pestanejar. Ao me deparar com a placa e os instrumentos vi que a tarefa não seria fácil mas, como a proposta era brincar, me entreguei ao movimento, mesmo com todas as limitações e nenhum conhecimento além do aprendizado que tenho ao ver o tanto e o como o amado se dedica a cada peça que faz. É sempre lindo de ver ele em ação nesse seu território sagrado.

Mas, vamos lá. O primeiro passo, depois de admirar a forma da base, parecida com uma lápide, foi pensar o que eu escreveria ali, ou melhor inventaria de escrever ali. Deu para me sentir criança que acha que escreve coisas que façam sentido com as formas que está aprendendo. Quem convive com crianças em início de alfabetização sabe como elas são mestras em escrever imensas histórias em uns poucos garranchos, a única diferença delas com um adulto que se propõe a mesma pesquisa é que elas realmente acreditam que escreveram tudo corretamente, a tal da maravilhosa inocência. Já nós, pobres adultos, por mais que nos dediquemos à viagem, sabemos que o significado não está correto, mas a brincadeira é valiosa mesmo assim. O segundo passo foi escolher um instrumento que pudesse adentrar o barro assim como o pincel faz na folha de seda. Mãos à obra, decidi começar com um ideograma (vixe nem sei se é esse o nome, depois vou pesquisar a diferença entre ideograma e caracteres) que parece o telhado de uma casa e é também como sei que começa a palavra aikidô.  Juntei mais dois, um que parece um sorriso e nomeei como alegria e outro que escolhi para simbolizar harmonia. Pronto, assim estava feita a placa: casa da harmonia e da alegria! Em alguns momentos senti que deixei fluir o movimento que resultou no traço, em outros a mente se intrometeu e a fluidez foi "pras cucuia". Terminada a obra, hora de assinar! Do alto do meu vasto conhecimento, pude inscrever Momô em japonês e, como tudo não passa de brincadeira e diversão, tasquei um acento circunflexo, meu amado chapeuzinho, no segundo O. Torço para nessa brincadeira não ter escrito nenhum palavrão. Terminada a primeira etapa, era só esperar a peça secar para os acabamentos finais. Isso tudo aconteceu no final de semana passado, o mesmo em que fomos visitados pela Dorim. Aliás, quem está curioso para saber se ela voltou, anuncio que nem sinal dela. Torcendo para que tenha encontrado o rumo de casa.

Voltando nessa semana, retomo a obra para os acabamentos finais, tudo sob supervisão do mestre Naldo. A primeira parte, desbastar as grandes imperfeições e lixar para receber a próxima e deliciosa etapa: olear a peça. Oleio é o nome dado a pintura feita com barros de outros tons, pigmentos naturais colhidos pelas paneleiras do Vale do Jequitinhonha. Preciosidades que Naldo traz de suas pesquisas por lá. A magia da coisa se completa por que temos que usar a imaginação para calcularmos como a peça ficará depois de queimada. As cores são quase como um negativo, o preto ficará branco, o cinza ficará prateado. Aliás não saberemos mesmo se a peca sobreviverá à queima, ela pode explodir, trincar, esfacelar.

A tarde caiu, a noite chegou e eu fiquei horas dedicada ao prazer de encontrar o pincel de um outro jeito, sobrepondo camadas de oleio, alisando a peça para desvendar seu brilho... num estado de presença meditativa. Penso que estou mudada… Naldo vive me convidando para desfrutar desse prazer e eu sempre com uma desculpinha esfarrapada que minhas mãos não são muito amigas do barro, secam ele com muita rapidez e logo ele está trincando, ou que estou ocupada com outros afazeres. Dessa vez, com a peça pré pronta, pude arriscar. Gracias Naldo!

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