Final de semana na Quinta.
Há três meses não ia lá.
Reynaldo subiu a montanha para encontrar o vizinho Zé. Eu peguei meu caderninho e sentei no sofá da varanda. Comecei a escrever...
"ESTOU NA QUINTA!!!!
Que saudades estava daqui, de sentar nessa varanda e simplesmente olhar a paisagem. Uma chuva começou..."
Quando escrevi isso, ouvi um barulho que vinha da cozinha. Era um beija-flor que havia entrado pela porta dos fundos e que estava lutando com o vidro da cozinha, tentando sair. Como isso aconteceu inúmeras vezes, eu não fui até lá para socorrê-lo, com medo de assustá-lo ainda mais. Só que o embate se estendeu e eu fui tentar ajudá-lo. Depois de uma primeira tentativa frustrada, eu consegui pegá-lo. Ele estava bem assustado, fechei as mãos em formato de concha, deixando sua cabeça com seu longo bico para o lado de fora. E na pequeniníssima caminhada de meia dúzia de passos até a varanda, ele se acalmou, ou entrou em estado de choque, não sei ao certo, sei que ao chegar à varanda e abrir as mãos, ele não voou. Confesso que, ao abrir as mãos, não dei aquele impulso que damos quando ofertamos ao pássaro o céu, gesto que já repeti inúmeras vezes quando solto os passarinhos que a minha gata Zefinha me traz de presente. Não, simplesmente, abri as mãos. Falei com ele sussurando, talvez com medo de assustá-lo mais ainda, disse-lhe que podia voar, e ele nada. Fiquei esperando, e ele lá, com suas minúsculas patinhas agarradas ao meu dedo. Esperei e nada...Resolvi me sentar, acreditando que, com essa movimentação, ele voaria, e nada...Senti, fiquei observando um piolhinho branco que passeava por seu longo bico, ia e vinha...A respiração do pequeno beija-flor ora acelerava, ora serenava. Fiquei me indagando se ele era ainda filhote ou se era de espécie de pequeno porte. Observei o recorte de suas asas e seu rabo esverdeado. O tempo foi passando e comecei a me perguntar se ele estaria machucado em consequência de tantas trombadas com o vidro ou se simplesmente estava tão assustado que nem conseguia voar, ou ainda pior, estava achando que era minha presa e sentia que a morte era certa. De vez em quando, ele virava a cabecinha, me olhava, fechava os olhinhos, abria. Eu podia sentir suas finíssimas unhas apertando fortemente a pele de meu dedo, no limite de adentrar a carne. Como otimista que sou, comecei a achar que, o que estava acontecendo ali, era que aquele singelo beija-flor estava mesmo era afeiçoado a minha pessoa, agradecido pelo resgate e descansando um pouco antes de levantar vôo, talvez esperando que a chuva parasse. Pensamentos que nós, bichos humanos, temos em relação a outros bichos, idéias, sentimentos que projetamos nessas inocentes criaturas. Mas o certo é que, por cerca de cinco minutos, nossos mundos se comunicaram através de uma linguagem intraduzível em palavras. E assim, sem nenhum aviso prévio por parte dele ou qualquer movimento brusco de minha parte, ele levantou vôo e, antes de sumir na mata, ele voltou um pouco até mim, e juro que vi seus olhos mirando os meus.
Se teve inspiração de Patty eu não sei, mas é um lindo relato....
ResponderExcluirbeijinhos,